23 abril 2011

[intro] Horas de Estrelas


Dizem por aí, que tudo tem seu tempo.
Quarta-feira (20/04/11) a noite, na biblioteca lemos trechos da “A Hora da Estrela” de Clarice.
Sexta (22/04/11) perguntaram-me sobre o fato de não escrever mais no meu blog.
Sábado, hoje (23/04/11) abro a pasta “Lolo Textos” e dentro dela tem a pasta “Blog” que dentro ainda possui uma pasta que recebe o nome de “Construções” e ao abri-la encontro contos sem término todos de 2009, um deles com o título de “Horas de Estrelas” e ao lê-lo novamente, refleti sobre o fato de escrever em primeira pessoa e ser uma mulher, o que é raro, não costumo escrever como mulher. E mais, pude encontrar nele muitas passagens que me lembrassem Gabriel García Marquez, lembrei-me ainda, que em 2009 li “Cem anos de solidão” e resolvi não alterar nada e publicar o conto em construção como foi feito até o dia 12/12/2009 e mergulhar nos detalhes dele que faz hoje muito mais sentido do que fariam quando escrito e perceber assim, que dentro de nossas evoluções interiores existem também, ciclos. E é desse ciclo de maturidade, experiência, sonhos e quem sabe a falta de tudo isso que percebo o reflexo de quem sou, mesmo quando ofuscada pelo [quem eram] os outros, os amigos, os amantes...
Ainda assim, existe a essência.



Horas de Estrelas

Na nostalgia do caos surgem perguntas ainda sem respostas e respostas para perguntas que já não me lembro quais eram. O tempo torna proporções irremediáveis e ele acaba nos controlando, nos domando como leões de circo. Domesticados por ironia, feras por na natureza. Sociedade nos molda da forma que torna-se convencional e estamos presos aos lugares de nossa história, à cultura que transpassa gerações e quando nos damos conta do que fizemos e do que ainda pretendemos fazer, temos um ápice de lucidez que nos leva a refletir sobre nossa insignificância e quão mesquinhos nossos valores tornam-se diante tantos outros fatores que moveram e ainda movem o Universo.
Lembrei de Dorival, um colega da escola, ele promovia piqueniques e em intervalos de comida e passeios no parque, trocávamos alguns diálogos boêmios que minha inocência não me fazia perceber isso e só hoje, rodeado dos maços de cigarro, das bebidas, livros empoeirados e uma bagagem de vida, percebo que Dorival era um malandro, com um sorriso cativante e uma alegria contagiante fazia as moças suspirarem e os homem gargalharem, as senhoras admirarem como bom rapaz e os pais acharem um exemplo para essa juventude que surgia.
Troquei afetos e centenas de cartas com Dorival, num tempo mais romântico e cheio de curiosidades nunca reveladas. Eu era moderna para nossa época, mas medrosa e cheia de complexos moralistas, que não passavam de besteiras e preocupação com pessoas alheias. Por razão dessas besteiras que não me mudei de uma vez pra casa de Dorival quando ele ficou bem empregado. Hoje não me arrependo, mas chorei por muitos anos de minha vida, a mágoa de decisões passadas.
Depois de Dorival, foi o Senhor Otávio que me encantou, era amigo de meus tios e sempre presente em confraternizações familiares, um homem casado de uma mulher que de fertilidade só conseguia lhe dar pés de goiaba num pomar apodrecido pelo tempo, pela umidade e pela falta de amor que havia numa casa imensa, herança dos falecidos pais da esposa. Otávio era um homem de boa índole, caráter indiscutível e que não saía muito, vivia a mercê dos caprichos de sua patroa e foi com ele que aprendi valores mais convencionais, ele parecia ter muito mais idade do que os anos que havia vivido, recebeu uma educação muito rígida e morreu um mês antes de seu aniversário de casamento, acidente, até hoje ninguém toca no assunto, mas dizem as más línguas que não era tão ajuizado quanto parecia e a criminalidade o levou para o túmulo.
Tornei-me amiga da viúva, Dona Catarina, moça distinta que lamentou toda a vida pelos filhos que não teve, chorou uma vez, confessando-me que casou a contra gosto com Seu Otávio e tinha certeza que ele era estéril, mas isso tiraria a honra de um homem e por isso ocultava seu ódio pelo esposo. Quis chorar junto com ela, ao pensar que amei Otávio e nunca ousei demonstrar meu sentimento mais puro e sincero por ele em respeito à Catarina.
Com isso tornei-me uma mulher "velha", que homem nenhum casaria por já estar desgastada e cheia de manias... Mas não me importei com os outros e com o que pensavam.
Vivi paixões, bebi e fumei em noites longas de verões, outono, inverno e na primavera dos licores de fruta e flores fiz meu companheiro na sesta.
Minha modernidade aguçava e aflorava conforme os anos passavam e menos me lembrava dos costumes antiquados da sociedade, fui dona da minha vida e escrevi textos e livros que os brasileiros horrorizados criticaram e cuspiram como a vergonha da literatura brasileira, a decadência de uma arte construída em palanques de madeira carunchada, de interesses econômicos sujos e eu levantei minha cabeça e segui em frente, não renunciei sequer uma palavra que escrevi, e faria tudo outra vez se me houvesse tempo, coisa que já não me resta mais.
Relatar uma vida em uma pequena folha de papel é tolice demais para uma senhorita idosa como eu.
Vivi guerras civis, um ditadura militar, três exílios, uma guerra mundial e diversas manifestações passivas ou não.
Não tive filhos e tão pouco netos para contar minhas histórias de avó e fiz dos meus dias tão agitados e incertos que nem seria uma boa mãe. Queria ser jovem e viver tudo outra vez, conhecer novas tecnologias, sonhar os sonhos dos jovens e sofrer mais uma vez, para carregar minhas insignificâncias cheias de erros e jogá-las num caixão com meus ossos.
A vida acaba como começa, os sonhos se realizam como foram concebidos, os dias tornam-se noites conforme o tempo nos impõem ... E se ele é nosso Domador de Leões, cabe a essa Leoa se despedir, de quem é que tenha restado para ouvi-la e para enterrá-la.
Morro bebendo e fumando, morro com meu organismo podre de vícios e saudoso de virtudes. Chorar não irei, já fiz demais por toda minha vida e agora cabe a mim a serenidade e um pouco de sensatez, que talvez não tenha dosado-a como realmente deveria ter feito.
Um adeus simples e vago...

12 de dezembro de 2009

05 setembro 2010

A imagem

E essa foto é o reflexo dessa essência, desse sentido.
No olhar de cumplicidade, de amizade, de quem se ama...
Num sorriso que nem eu conhecia em mim.
No seu sorriso que tão bem conheço - talvez poucos o tenham visto.
Riso inocente.
Riso de quem não precisa se preocupar com os julgamentos e com a exposição de seus sentimentos.
Porque inevitavelmente eles se expõem.
Inevitavelmente nos tornamos o que somos.
Expondo um ao outro o que pouco se entendia, mas muito se sentia.
Do pouco de razão e do muito da emoção.
Dilacerando certas morais e conceitos que o contexto nos inseriu.
Das relações que a vida nos criou, dos amigos que nos deu e amantes...
Uma foto que na banalidade dos problemas das pessoas
Nas dificuldades
Na falta de tempo
Se passa despercebida.
Como esse olhar, deveríamos ter tantos outros na nossa história.
Tantos que nem nós podemos ter tido conta.
Em tempos onde nada disso poderia ser imaginado.
Mas não só da imaginação os sonhos se tornam realidade.
A realidade é travessa e pode imperar em nossos sonhos.
Como uma ironia, uma brincadeira do destino.
Fluir, deslizar, voar e se permitir!
Deixar os dias serem mais que sucessão de acontecimentos.
Que os sorrisos sejam surgidos do nosso íntimo.
Que olhar revele muito, de forma simples e clara.
De forma leve e incalculável.
Que exista.
Fique aí existindo para os meus sorrisos, olhares, desejos e vontades.
Exista para minha felicidade, para o apoio na dificuldade.
Solene, intenso, complexo, denso, meticuloso, leve...
A imagem de nossos eu’s – existindo – revela o que não se vê, o que se sente e existe de forma real e ilusória.
Amor!

Nesses poucos meses, onde muito parece pouco e pouco parece muito.

Onde o tempo voou e estacionou pairando pelas vistas que de belas, pudemos curtir como andorinhas num verão, pombinhos de uma paixão e joões de barro para uma eternidade.


Com todo meu olhar, sorriso e sentimento.

Lorena Dantas Abrami.




30 junho 2010

Porque Eu não sou seu Deus

Pensei que as pessoas em meio a tantas falhas podiam, também ser legais e ter atitudes nobres, apesar de muitas vezes agirem de forma que desaprovaria. Sei que sou um pouco exigente com as pessoas ao meu redor, principalmente se há sentimentos como admiração que envolva tal relação.
Admirar as pessoas é algo que se torna cada vez mais meticuloso e raro, há banalizações de certos valores, a hipocrisia, por exemplo, que posso considerar um defeito catastrófico, não que não cometamos sempre, o tempo todo; porém, quando se torna algo impiedosamente hipócrita é tão decepcionante que as reações de quem percebe tamanha incoerência de atos e ideologias, chega ao ponto de chocar, desnorteando o ser que até então apreciava o hipócrita acometido, os sentimentos de desilusão são maiores que traições e qualquer mal que possam causar de forma direta não deixariam tão confuso e misturando sentimentos ao ponto de não compreendê-los.
Parece que não estou sendo claro e muito menos objetivo no meu diálogo. Vago por pensamentos de minhas concepções e confesso que não os tive assim, numa nuance foram dias analisando e a cada nova reação que eu tinha em resposta ao que via exteriormente, de forma visível e fútil, nos trejeitos, nas frases infelizes de um ser que há pouco tempo eu considerava um companheiro, um amigo, a quem poderia depositar um certo grau de confiança e intimidade, digo “um certo grau” porque nossa amizade surgiu em alguns meses e não se conhece alguém o suficiente tão depressa, talvez nem em toda uma vida, mas as relações, sejam elas qual forem, surgem com o tempo que se dedica ao outro, que compartilha, com experiências que passamos juntos ou mesmo que vemos a pessoa passar e lidar com elas, fáceis, difíceis, grandiosas ou não e assim percebemos seus valores e crenças, suas prioridades e objetivos, as semelhanças são importantes para unir e as diferenças para crescermos juntos, sem que certas diferenças cheguem ao ponto do egoísmo sólido, egoísmo esse que constrói muros gigantescos numa falta de empatia, de interesse mútuo e um narcisismo tremendo nasce tornando uma relação unilateral, de uma via imensamente construída para um único lado, construída tanto pelo outro quanto pelo próprio ser que se contempla, que acredita piamente que nada é mais importante que seus sentimentos.
Minhas pernas tremiam, tive medo de desmaiar, tive medo de não conseguir um momento suficiente de lucidez, para que eu pudesse me ajudar, para que eu pudesse me recompor e nesse estado que me encontrava, cruelmente viraram-se as costas de seres, não tão humanos, mas ainda assim, seres que um dia pude, talvez numa insanidade, ter tido a inocência de ver valores priorizados neles, valores esses que eu priorizo e lucidamente percebo que a ilusão que tive, era apenas o meu reflexo.
A concepção de crueldade de determinadas pessoas é exatamente quando se vai contra a concepção delas, contra a vontade do que querem ouvir, de quererem ser acolhidas. A crueldade na concepção do egoísta, daquele que se prioriza a todo instante é justamente o fato de que se você discordar ou pensar em tomar atitudes opostas, você é escória, você merece nem se quer o chão que está pisando, porque Eu não sou seu Deus.
E ali buscando em mim as forças que meu corpo perdia e ainda o medo da solidão momentânea, do abandono... Chorar apavorado.
No choro abandonar qualquer resquício que possa sobrar de sentimentos avessos ou não por seres que provaram que nem só da humanidade se vive, que seres tão pouco ricos de valores, de bondade e cordialidade dividem espaços com pessoas sensíveis e virtuosas e que na coexistência que formam as diferentes concepções, encontramos uma sociedade desequilibrada.
Há diversas dúvidas que ficarão a quem ler esse relato, mas há uma única certeza em mim.
Jamais sentiria raiva, ódio ou mesmo amor e compaixão por seres desumanos, o egoísta consegue apenas a indiferença e talvez eu tenha pena, é talvez eu tenha.

22 fevereiro 2010

Tempo

Ó inferno, como os dias passam de forma lenta e dolorida apesar da chuva, dos dias cheio de ocupações e espero ansiosa as horas de amanhã passarem para que eu possa vê-lo, nem que seja de longe, nem que seja um olhar apenas, um sorriso ou qualquer coisa que seja, porque ainda haverão os outros dias distante, os dias sem ele, os dias de reflexos e de pensamentos doloridos e difíceis, ó semana, ó tempo de angústia, ó tempo de emoções caladas ao afogar em lágrimas, ao derramar sobre pensamentos que não são esquecidos, pelos sorrisos, pelos abraços e olhares de compreensão, do tempo que não vivemos mais, do tempo que será o futuro.

15 dezembro 2009

Ao amor!


- Eu não sei como você não se tornou amiga deles antes, se bem lhe conheço você já teria o feito.
- De fato, você me conhece muito bem, mas talvez os acontecimentos fizeram com que essa amizade fosse adiada.


Não sei, eles passam uma energia diferente a mim, é como se eu visse o reflexo das nossas vidas neles, não que tenhamos tanta diferença de idade, isso é praticamente imperceptível, mas o modo como as coisas sucederam entre eles, por uma pessoa que viu de fora, como eu, trazia uma nostalgia de um tempo não tão remoto, mas tão maravilhoso quanto o tempo que estavam vivendo no início de seu relacionamento.
Praticamente acompanhei-os como uma observadora, percebia um sentimento de talvez timidez ou medo do namoro por parte dela, como você, meu amor, tinha quando começamos nosso relacionamento. Depois ele usou da mesma estratégica que eu: Um pouco de indiferença para provar que fazia diferença em sua vida.
Torço por eles, torço que sejam felizes como nós dois somos... Torço para que tenham paciência um com o outro e que nas dificuldades consigam superar e tê-las como lição, como as que passamos neste ano tão difícil que foi para mim e consequentemente foi para você.
Que a pureza dos sentimentos seja preservada durante as discussões e brigas que venham a surgir e que resgatem sempre a essência da força que o transformaram em um só, num casal tão adorável que contagia com a demonstração de reciprocidade e sinceridade no afeto.
É bom poder ter tido o prazer de conhecê-los e tirar a prova real de que eu estava certa em olhá-los com tanto carinho quanto olho nossa relação.


Um conto breve, que mais parece um relato, mas talvez por que realmente seja, apenas um relato do que sinto e do que estive pensando agora, descendo da rua de casa...
Pensei no casal que conheci, pensei em mim e no meu namorado e todos os momentos adoráveis que nossa amizade e mais tarde nosso namoro proporcionou um ao outro e como fomos fortes para superar juntos minhas doenças,todos os outros problemas que viemos a ter e hoje, somos outras pessoas: mais maduros, mais lúcidos sobre a realidade e sobre os sonhos que coexistem dentro de nós. Pensei na leveza dos dias que tenho passado, de umas férias tão diferentes de qualquer outras que tive, numa primavera que irradia e que meus sentimentos e modo de ver a minha vida e a relação dos outros me torna mais sensata, mais flexível e assim até consigo viver melhor, tendo mais tempo para apreciar as cores, os pequenos detalhes e quaisquer outras formas de vida que meus olhos possam ver...
Ao amor! Que é a forma mais bela e mais irracional, irracional pelo fato de quem nem sequer sabemos o por quê amamos, quando nos damos conta de um relacionamento, já vamos nos entrelaçando de uma forma tão natural que nos dá intimidade e já estamos sentindo diversos tipos de feições, seja fraternal, de zelo ou de vontade e desejo, e o amor torna-se parte de nós como os defeitos e nossos outros "eus " que pouco os conhecem surgem para quem queremos compartilhar de toda uma vida e até mesmo as imperfeições do outro, tornam-se amadas e já não saibamos viver sem aqueles detalhes que nos irritam, sem as atitudes que nos revoltam, porque tudo isso é o que compõem nosso companheiro e fiel amigo, amante, irmão... E tantos outros laços de união que germinam e brotam mais tarde, alimentados por todo o afeto, compaixão, paixão, preocupação, amor... Puro, simples, verdadeiro e transparente!
Que não seja efêmero e negligente e que seja aperfeiçoado e nos faça sábios diante da vida!


Dedico esse conto (relato) simples e objetivo ao "Casal UTF": Telise Roberta e Ewerton André.
E ao meu caro amigo e amante: Diego Moreira.

08 dezembro 2009

Sem título

Percebi que estava crescendo quando mamãe começou a colocar cuecas e meias do meu pai em minha gaveta. Achava graça e me sentia grande o bastante pra enfrentar o mundo inteiro, me sentia maduro por já ter o tamanho do meu pai e usar roupas íntimas de adulto.
A primeira vez que percebi a dificuldade de crescer, foi quando fiquei doente e ao invés do pediatra me ver, foi um clínico geral.
Conforme os anos passavam, tudo tornava proporções maiores e minhas prioridades de garoto viravam besteiras das quais eu já não tinha mais tempo.
Duro mesmo foi quando minha profissão deixou de ser "estudante", passei a ter horários mais rígidos e receber um dinheiro todo mês o que parecia muito bom, mas junto com ele vieram as contas, as parcelas, os juros do banco, o cartão de crédito, a segunda conta, o primeiro talão de cheque, o segundo emprego, o terceiro, o cheque especial...
Nisso tudo eu deixei de ser solteiro e tornei-me casado... com filhos.
Hoje sou um homem e tenho medo de cada passo que dou.
Inseguro sou, dependente deixei de ser e lidar com todas essas responsabilidades e atitudes que a vida nos impõem me fez ter medo de envelhecer...
Não por vaidade, pelas rugas ou pela flacidez , mas por morrer sem ter encontrado minhas razões, sem ter entendido o tempo, a vida e meus próprios objetivos, sem ter certeza se foi isso que desejei pra mim.
Frustro-me ao pensar que não me auto avaliei antes e cheguei até aqui sem entender muitas das minhas atitudes, muitos dos meus sentimentos e agora a vida me pôs contra parede, tenho uma casa, uma esposa e dois filhos que dependem do meu desempenho, dos meus sentimentos para tudo estar bem e que haja paz e felicidade em nossas vidas.
Mas nunca saberei se fui feliz antes ou se sou feliz agora, queria poder experimentar outras vidas e escolher a que mais me agrada.
Queria ter tempo para ser criança sem que as obrigações me batessem a porta, sem que os anos passassem...
Chorei ontem e choro agora como um bebê recém-nascido que sai do útero sem entender o por quê fizeram isso com ele!
Não há uma razão para essas palavras, para essas frases e não há, porque tudo torna-se racional demais sem tempo para refletir e eu só quero o incerto, a dúvida, as alternativas, a ilusão, os sonhos...

12 agosto 2009

Sonhos Concretizados

Comprei sapatos novos e fui ao encontro de meus amigos.

Havia comido ovos fritos pela manhã e sonhei com uma grande construção, onde meu falecido pai dizia-me que havia pouco tempo para a obra se concretizar e sermos felizes, ele sorria como nunca em vida o vi fazer, nem tanto brilho em seu olhar pude apreciar. Senti um certo medo e que as responsabilidades surgissem ainda mais. Perdi meu pai aos três anos e minha mãe aos 17, passei um ano de favor na casa da irmã de minha mãe, minha tia gostava muito de mim, mas seu segundo marido se incomodava bastante comigo, o que fez com que eu saísse de lá uma semana depois do aniversário que completei minha maioridade, fui obrigado a largar a faculdade que havia iniciado há alguns meses e trabalhava o dia inteiro pra pagar as contas do quarto/cozinha que passei a viver. Meus pais me deixaram uma casa boa, aluguei para um casal e filha e todo o dinheiro que ganhava com ela depositava numa poupança, tinha esperanças naquilo. O tempo foi passando e eu correndo atrás das oportunidades que não me apareciam, mas que eu tinha ilusão de encontrar, fiz amigos na metalúrgica que trabalhava e é com eles que saí, era meu aniversário de 19 anos.

Cheguei há um bar não muito longe da fábrica, onde costumávamos tomar café nos intervalos e dois deles já estavam me esperando, conversamos um pouco, eles me perguntaram da loja que eu trabalhava e eu contei que o salário era menor, mas eu ganhava uma boa comissão porque vendia bem e pelo menos iria poder retomar aos estudos porque me desgastava menos vendendo, meu terceiro amigo chegou, era o último que faltava e veio com um pacote na mão, eles haviam me comprado um livro, os três juntos e eu abri e eles entusiasmados falaram:

- A gente não entende muito de livro, se você não gostar e quiser trocar, você tem 7 dias, a gente comprou porque sabe que você gosta muito de ler!

Agradeci e depois daquela tarde de domingo agradável voltei pra casa intrigado com o livro na mão!

Era um livro de auto-ajuda, nunca havia lido um em toda a minha vida e sempre achei inútil ler sobre coisas que toda mundo já sabe e vivencia todos os dias! Que raios, que merda de livro, que vou fazer com ele?!

Aí me lembrei que poderia devolvê-lo em até 7 dias e joguei ele na poltrona da minha casa.

Acordei atrasado na segunda-feira e fui direto trabalhar e ouvi alguém dizer que domingo tinha um churrasco da turma da loja, passei a semana estudando depois do trabalho, iria prestar vestibular daqui alguns meses.

Domingo um colega da loja chegou na minha casa e disse que estava indo ao churrasco e que iria me levar com ele, não estava muito entusiasmado e pedi para ele esperar enquanto eu me arrumava, que eu queria uma carona até o shopping para trocar um livro, mas que não iria ao churrasco, o cara era chato e insistiu muito e eu fui com ele, deixei o livro no carro dele e pensei passar no shopping na volta.

Eu bebi algumas cervejas e esqueci do livro, acordei atrasado na segunda e fui correndo trabalhar, meu colega me entregou o livro dizendo que eu havia esquecido no carro dele e eu com raiva de não poder devolvê-lo acabei por demonstrar e meu colega disse:

- Calma cara, você já leu esse livro?

- Não e não tenho tempo para lê-lo ando estudando muito...

- Arruma um tempo, não é por um acaso que ele está com você ou você acha que é?

Fiquei o dia todo pensando nisso “não é por um acaso” e lembrei do sorriso e dos olhos de meu pai no sonho.

Cheguei em casa e não peguei em cadernos e apostilas, não iria estudar naquele dia, preparei um miojo e resolvi ler o tal livro que ganhei: “Sonhos concretizados”.

O primeiro capítulo chamava: Meu aniversário

- As vezes sonhamos com coisas que parecem não fazer muito sentido mas que nos causam uma insegurança e foi num dia como esse que resolvi comprar um par de sapatos novos...

Não podia estar lendo aquilo, fechei o livro e procurei me acalmar, lembrei de meu pai, dos meus sapatos novos, dos meus amigos no meu aniversário, do... “não é por um acaso”.

Deixei o livro lá jogado e continuei com minha rotina, ia do trabalho para a casa e estudava muito, dormia pouco, mas sabia que valia a pena...

Depois de algumas semanas resolvi lê-lo novamente e todas as coisas se encaixavam com os acontecimentos recentes de minha vida, e assim fui lendo um pouco (uma ou duas frases) há cada quinze dias, com medo, mas não parei. Entrei na faculdade, escolhi o mesmo curso que meu pai, fazia jornalismo, arrumei um estágio como fotógrafo e o autor do livro também, conheci uma garota maravilhosa e ela parecia tanto com a minha mãe, passamos a morar juntos, o autor do livro também foi morar com a namorada e eu passei a ser um fotografo muito consagrado e de muito prestígio, minha esposa estava grávida e tive de fazer uma viajem a África do Sul, deixei o livro na minha casa, bem guardado para que minha esposa não o visse, ela se assustaria e eu não teria como explicar tamanha coincidência em nossas vidas e após a temporada de seis meses, retornei, eu não ganhava muito dinheiro, mas fazia o que gostava, amava a vida que eu levava, cheguei a pensar que era o homem mais feliz do mundo, até que descobri que estava com uma doença muito grave, um vírus que devo ter adquirido na África e passei uma época muito difícil, minha esposa sempre me auxiliando e meu filho tinha apenas dois anos e meio quando meu corpo não agüentava mais e fiquei enfermo jogado numa cama.

Passava os dias com uma nostalgia gostosa e não conseguia ser triste mesmo adoecendo cada dia mais, eu amava tanto minha esposa e meu filho e vivi experiências maravilhosas em meu trabalho e nas viagens que ele me proporcionou, conheci pessoas incríveis e já tinha vivido como se fosse velho o suficiente e maduro para cair do pé.

Lembrei de meu pai e de como minha mãe o amou mesmo depois de morto e apesar do sofrimento que passou todos os 15 anos longe dele, nunca me contou muito sobre ele e mal sabia eu que estava tão perto de entende-lo, talvez tanto quanto ele mesmo.

Meu filho completou 3 anos na semana passada e eu terminei de ler o livro hoje de manhã, o livro foi escrito pelo assistente de meu pai na viagem que ele fez há África em 1977, esse homem virou um grande admirador de meu pai e escreveu a vida dele nesse livro, minha mãe nunca me contou e eu nunca saberei o por quê. O livro não era de auto-ajuda, era só um relato, em primeira pessoa da vida do meu pai vista pelos olhos de seu assistente, queria ter mais tempo para escrever, mas já não tenho muita força e meus dias estão contados. Espero que esse livro seja encontrado pelo meu filho e ela possa viver a vida de maneira linda e intensa, como vivemos, eu e papai, não poderei ver meu filho crescer, mas realizei todos os meus sonhos e fui muito feliz como espero que todos que leiam esse pequeno e humilde relato sejam e encontre suas histórias nos livros da vida.